Heloisa Magalhães - 14/02/2007 - Valor Online
A reunião foi fechada. Estavam presentes presidentes das maiores operadoras de telefonia celular do mundo, em especial da Europa e da Ásia, como Vodafone, Orange, O2, Bharti Airtel, da família indiana Mittal, apenas para citar algumas, além de ministros de Estado da Espanha e da Índia, altos executivos de fabricantes de equipamentos de telecomunicações e do mercado financeiro.
O principal tema de discussão, segundo o Valor apurou, foi que a telefonia celular, cada vez mais agregada à banda larga, precisa ser entendida como uma nova mídia e deve entrar forte na disputa de mercado com a internet. E, a partir daí, haverá mais fôlego, maior receita, em especial, com o uso do celular para remessa de dinheiro, pagamento eletrônico, para ser usado como canal publicitário, de oferta de entretenimento, música e TV.
E, também, o foco do debate fechado em torno de novos mercados foi o de conquistar os países emergentes. Essa reunião aconteceu na segunda-feira, o primeiro dia do 3GSM WorldCongress, quando não houve palestras. A agenda foi voltada para o ambiente de negócios neste evento que, até quinta-feira estará lotando os hotéis de Barcelona. Reúne, na charmosa cidade, quase 60 mil participantes.
Ontem foi o momento de tornar públicas as ambições. Abriram as palestras três conferencistas de peso: dois indianos e um egípcio que estão à frente de três gigantes: Arun Sarin, presidente da Vodafone, a maior operadora celular do mundo GSM; Sanjiv Ahuja, da européia Orange com presença na África; e Naguib Sawiris, da Orascom.
Este último foi o único a confidenciar em conversas que tem interesse de entrar no Brasil. Os demais estão com as antenas voltadas para a Ásia. Sawiris entende de mercado de baixa receita por assinante. Com 500 milhões de clientes, atua em países como o Afeganistão, onde o minuto de conversa é tarifado a um centavo de dólar. A receita média por cliente fica na casa de US$ 1,5.
A Vodafone anunciou, segunda-feira, a compra da Hutchinson Essar, da Índia, país que passou a China e se tornou o mercado de maior crescimento na telefonia celular. No ano passado, entrou no Quênia e há dois anos foi menos ousada, comprando empresas na República Tcheca, Romênia e África do Sul. A Orange está no Senegal e países ex-colônias francesas pois nasceu na France Télécom
“Os indianos do interior adoram falar e não têm quase telefone”, disse Sarin. Informou que a penetração da telefonia celular na Índia é de 13% e a cobertura de 40% da população. Os 500 milhões de usuários falam, em média, 400 minutos por mês, enquanto na Europa esse número é de 1,5 mil. A empresa que comprou tem 150 milhões.
O Brasil praticamente não está no alvo dos novos investidores. Ficou de fora dos anseios das grandes operadoras. A constatação de executivos brasileiros presentes é de que, além da penetração da telefonia celular ser superior a 50%, a incerteza regulatória, com um órgão regulador, no mínimo, reticente, são fatores que tiram o país do foco, disseram ao Valor o presidente da TIM Brasil, Mario Cesar Pereira de Araújo e o sócio-diretor da Accenture, Petrônio Nogueira. Já para Otávio Azevedo, da Andrade Gutierrez Telecom, sócia da Telemar/Oi, outro fator de peso é a elevada carga de impostos, de 40%.
Mas os executivos das operadoras ontem foram todos taxativos quanto ao futuro do setor no mundo. Defenderam pressa na implementação de novos serviços baseados na banda larga. A concorrência com a internet é fator de preocupação. Os avançados serviços como Google, YouTube e dezenas de outros, podem criar hábitos no consumidor tirando a chance da banda larga no celular ganhar posição de destaques nas novas mídias.
Para a Vodafone, todas as operadores precisam se unir, compartilhar infra-estrutura, unir-se na definição de padrões, buscar maior escala, transformar o que existe na tecnologia em produtos acessíveis ao usuário. “Deixamos de ser operadores de telefonia celular. Nossos clientes querem vídeos do YouTube, as comunidades sociais como o MySpace. Não podemos ficar de fora, senão outros ocupam o espaço”, disse. A Vodafone anunciou acordos com YouTube, eBay, MySpace e Google.
A jornalista viajou a convite da Alcatel.
Fonte: Valor Online